O Pai Nosso – Parte 2

Instrução

A esta altura, somos assaltados com uma nova indagação: qual a instrução ou ensinamento específico desta oração?

Para que possamos compreender corretamente o ensino de Jesus nesta oração, devemos observar, a princípio, que há orações que o Senhor não ouve ou reponde.

  • Os versos de 1-6, nos mostram que Deus não responde orações hipócritas e/ou autossuficientes (conf. Lucas 18.9-14).

Aqueles que buscam a mera aprovação humana, confiando em si mesmos, que se achegam a Deus, apoiados em seus próprios méritos, não obterão o favor Divino, pois para receber a graça de Deus faz-se necessário confiar Nele (Hebreus 11.6).

  • Os versos de 7-8, por sua vez, revelam que Deus não responde orações compostas de repetições fúteis e sem sentido.

Há pessoas que pensam que a repetição contínua de determinadas frases, comoverão o Senhor e dessa forma, Ele as atenderá. Jesus comparou esta prática com costumes pagãos. Os adoradores dos falsos deuses, acreditavam que precisavam agradar as divindades às quais oravam, para que estas lhes respondessem. Um exemplo clássico é confronto de Elias com os profetas de Baal no Monte Carmelo (I Reis 18.25-29). Destarte, William Hendriksen (teólogo holandês) observa que:

 

O que Cristo condena é o espirito de medo e desconfiança que faz com que os pagãos, que não reconhecem o Pai celestial, balbuciem mais e mais, na crença de que de outro modo seus deuses não estariam completamente informados nem suficientemente aplacados, e assim não pudessem conceder o que seus adoradores lhes pedem.¹

Por outro lado, William Barclay (teólogo escocês), ressalta que os judeus tinham “orações especiais para todas as ocasiões. Não havia circunstância da vida que não  tivesse sua fórmula devocional apropriada”.² Em outras palavras, o formalismo havia tomado conta do povo de Deus e suas orações não passavam de repetições de frases religiosamente formuladas. É interessante perceber que a expressão usada por Jesus para referir-se às vãs repetições é o verbo grego Βατταλογέω (Vattalogéo), que significa “repetir a mesma coisa várias vezes; usar muitas palavras inúteis”. Neste sentido, algo comum era o acumulo de adjetivos atribuídos a Deus, com o fim de agradar-lhe e tornar-lhe sensível às orações feitas. Assim, havia uma famosa oração que começava da seguinte forma: “Bendito, louvado, glorificado, exaltado, enaltecido e honrado, engrandecido e louvado seja o nome do Santo”. Outra, por sua vez, começava atribuindo dezesseis adjetivos ao Senhor. É como se tais expressões, tornassem Deus favorável às petições daquele que orava. Um ledo engano!

 

Análise da oração do Pai Nosso e seus princípios

Contrariando a crença comum do povo, que aliás, estava corrompida pelo paganismo, Jesus ensina como os discípulos deveriam orar, apresentando uma oração que é completa em todos os aspectos e serve, como vimos, de modelo para todas as demais.

Após observarmos a breve orientação do Senhor: “Portanto, vós orareis assim” (verso 9a), didaticamente podemos dividir esta oração em três partes:

 

  1. Uma invocação
  • Pai nosso, que estás nos céus (verso 9b);

 

  1. Seis petições
  • Três em relação a Deus:
  • Santificado seja o teu nome (verso 9c);
  • Venha o teu reino (verso 10a);
  • Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu (verso 10b).
  • Três em relação aos homens:
  • O pão nosso de cada dia dá-nos hoje (verso 11);
  • E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores (verso 12);
  • E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal (verso 13a).

 

  1. Uma declaração doxológica
  • Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém! (verso 13b).

Continua…

 

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


[1] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Mateus. Vol. 01. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.

[2] BARCLAY, William. Comentário do Novo Testamento – Mateus (PDF).