O Pai Nosso – Parte 3

Orientação dada por Jesus

Antes de analisarmos cada ponto desta oração, avaliemos a orientação do Senhor.

Como vimos, no verso 9a, Jesus dá uma direção aos discípulos ao orientá-los dizendo: “Portanto, vós orareis assim”. Isto porque, um dos discípulos havia pedido que Jesus lhes ensinasse a orar e ele o faz, primeiro demonstrando como não orar (cf. versos 1-8). Em seguida ensina quais passos devem seguir em suas orações.

Quando Jesus ensina seus discípulos a orar, ele parte do pressuposto de que eles orarão: “Portanto, vós orareis assim”. Perceba que Jesus não está dizendo que eles devem orar. Ele pressupõe que irão fazê-lo, que a oração será algo natural para os seus servos. Que ela fará parte de sua vida diária.

O teólogo americano, Dr. Charles Hodge declarou que “a oração é a conversa da alma com Deus”¹. Portanto, é impossível ser cristão e não orar. Como bem observa R. C. Sproul: “alguém pode orar e não ser um cristão, mas alguém não pode ser um cristão e não orar”². Sproul argumenta ainda que:

Em um sentido, a oração não é natural para nós. Embora tenhamos sido criados para a comunhão e interação com Deus, os efeitos da Queda têm-nos deixado preguiçosos e indiferentes para com algo tão importante como a oração. O novo nascimento desperta um novo desejo de comunhão com Deus, mas o pecado resiste ao Espírito.³

Mas, e se eu orar e Deus não me responder?

Devemos ter em mente, o fato de que, devemos orar primariamente para glorificar a Deus e não para recebermos algo Dele. Os benefícios advindos da oração são resultado da graça Divina e não de nossos méritos. Eis a razão porque devemos orar em nome de Jesus, ou seja, apoiando-nos em seus méritos.

 

A quem deve ser dirigida esta oração?

É preciso atentar para o fato de que esta oração não é dirigida a homens, a anjos, ao Filho ou ao Espirito Santo. Ela é dirigida ao Pai: “Pai nosso, que estás nos céus”. É importante entendermos esta questão, pois nos dirigimos não a um estranho, mas ao nosso Deus e Pai, com quem devemos ter intimidade. E como disse Davi: “A intimidade do SENHOR é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança” (Salmo 25.14).

O termo “אֲבִי” (abba: pai) em aramaico ou “αββα” (abba: pai) em grego, usado por Jesus nesta oração, certamente deixou os discípulos perplexos, pois um judeu jamais se dirigiria a Deus com tamanha intimidade e ousadia. Embora, por diversas vezes Ele tenha se declarado como um pai para o povo escolhido (Êxodo 4.22; Isaías 43.1-7; Jeremias 31.9). Tal expressão era uma das primeiras palavras que uma criança aprendia a dizer, tão logo era desmamada. Representando assim, a dependência e intimidade de uma criança com seus pais.

O Dr. Hermisten Maia, citando J. Jeremias, observa que Jesus dirigia-se a Deus como uma criancinha a seu pai, com a mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante. Jesus considerava este modo infantil de falar como a expressão do conhecimento único de Deus que o Pai lhe dava, e de seus plenos poderes de Filho.⁴

Devemos, portanto, atentar para o fato de que Deus não é um Ser distante e que está alheio à nossa vida, como afirmam os deístas⁵. Ele está presente e cuida de nós em todo tempo, assim como um pai cuida dos seus filhos.

No Novo Testamento esta relação paternal é agora, estendida além-fronteiras e todos os que pela fé se entregam a Cristo, são feitos filhos de Deus (João 1.12; Gálatas 3.26; I João 3.1-2). Essa é uma certeza que nos é dada pelo Espirito Santo (Romanos 8.16). Mas, o apóstolo Paulo vai além, e diz que por termos o Espirito Santo, podemos clamar: “αββα πατηρ” (abba pater: pai, papai; conf. Romanos 8.15; Gálatas 4.6).

Não obstante o supracitado, precisamos analisar esta sentença com certo cuidado, pois ela traz, tanto um elemento de intimidade quanto de reverência e submissão, fazendo-se necessário atentar para o fato de que Deus é o Pai celestial e embora nos acheguemos a Ele com intimidade, igualmente deve haver reverente temor e tremor de nossa parte, pois ele é Deus.

Observe, portanto, que na sentença central do verso 09, a expressão usada por Jesus é: “Pai nosso, que estás nos céus”. De certa forma, Jesus demostra que há diferença entre as relações que mantemos com nosso pai terreno e com nosso pai celeste. Ao passo que Deus é o nosso “αββα”, ele permanece sendo nosso “κυριος” (Senhor). Assim, como destaca Sproul: “Pai nosso fala de proximidade com Deus, mas nos céus destaca sua singularidade, sua separação. O ensino é este: quando oramos, temos de lembrar quem somos e a quem nos dirigimos”⁶. Semelhantemente, o Catecismo Maior de Westminster na pergunta 189, afirma que:

Pai nosso que estás nos céus, nos ensina, quando orarmos, a nos aproximarmos de Deus com confiança na sua bondade paternal e no nosso interesse nele; com reverência e todas as outras disposições de filhos, afetos celestes e a devida apreensão do seu soberano poder, majestade e graciosa condescendência; bem assim o orar com outros e por eles.⁷

Continua…

 

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


[1] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.

[2] Cf. SPROUL. R. C. Op. Cit. pág. 8.

[3] Idem.

[4] Cf. COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Op. Cit. pág. 19.

[5] Os deístas negam o envolvimento de Deus com suas criaturas.

[6] Cf. SPROUL, R. C. Op. Cit. pág. 35.

[7] O Catecismo Maior de Westminster. 15ª Edição. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.