O Pai Nosso – Parte 6

Terceira petição

Diametralmente ligada à petição “venha o teu reino”, está a súplica “faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu”. Assim, quando oramos pela vinda do Reino de Deus, estamos pedindo que sua vontade se estabeleça e que nós estejamos sejamos submissos a ela em todo o tempo e onde quer que estejamos. Neste sentido, precisamos atentar para o fato de que nem sempre estamos dispostos a obedecer à vontade de Deus.

O primeiro dos Cinco Pontos do Calvinismo é a “Total Depravação”. Isso implica em que o homem que foi criado numa condição de perfeita santidade e submissão à vontade de Deus, mas após a queda, ele se encontra em um estado de rebelião tão séria que todos os seus atos, vontades e disposições são totalmente afetados pelo pecado. Implica ainda, que a inclinação dos homens é sempre para o mal, sempre contra a vontade revelada de Deus (Romanos 7.19-25; Tiago 1.13-15). E por sermos resistentes à vontade Divina, precisamos orar, pedindo que o próprio Senhor nos submeta ao seu querer.

Esta frase (faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu) não está pedindo a Deus que determinado conselho se torne realidade ou que Deus faça as coisas que preordenou desde a eternidade. Em vez disso, estamos orando por obediência à vontade revelada de Deus – o que ele nos deixou evidente por meio de seus mandamentos. A terceira petição é uma súplica por obediência da parte do povo de Deus, uma súplica no sentido de que as pessoas que fazem parte do povo de Deus obedeçam aos mandamentos de Deus.¹

O ponto nevrálgico aqui, é o conhecimento da vontade de Deus. E quando tratamos da vontade de Deus, precisamos entender que ela tem dois aspectos distintos: vontade decretiva e vontade preceptiva.

 

  • Vontade decretiva – quando falamos da vontade decretiva de Deus, nos referimos àquilo que ele decretou desde a eternidade e que mesmo que nos seja oculta, inevitavelmente será realizada. Um bom exemplo disso, é o eterno decreto de que Cristo morreria sobre a cruz. Bem como a eterna decisão de nos eleger (predestinar) para salvação. Essas verdades estiveram ocultas por séculos, sendo reveladas apenas na plenitude do tempo (II Coríntios 2.6-8, Efésios 1.3-14, II Timóteo 1.8-9). A vontade decretiva de Deus, jamais poderá ser frustrada (Jó 42.2). É importante salientarmos que nem sempre conhecemos a vontade decretiva de Deus. Por isso, ela é também conhecida como vontade secreta (p. ex. Mateus 24.36).

Conforme salienta o teólogo holandês Louis Berkhof:

 

“A Bíblia emprega várias palavras para indicar a vontade de Deus, a saber, as palavras hebraicas chaphets, tsebhu e raston, e as palavras gregas boule e thelema. A importância da vontade divina aparece de várias maneiras na Escritura. É apresentada como a causa final de todas as coisas. Tudo é derivado dela: a criação e a preservação, Sl 135.6; Jr 18.6; Ap 4.11; o governo, Pv 21.1; Dn 4.35; a eleição e a reprovação, Rm 9.15, 16; Ef 1.11; os sofrimentos de Cristo, Lc 22.42;   At 2.23; a regeneração, Tg 1.18; a santificação, Fp 2.13; os sofrimentos dos crentes, 1 Pe 3.17; a vida e o destino do homem. At 18.21; Rm 15.32; Tg 4.15, e até as menores coisas da vida, Mt 10.29. Daí a teologia cristã sempre reconheceu a vontade de Deus como a causa última de todas as coisas.”²

 

  • Vontade preceptiva – quando tratamos da vontade preceptiva de Deus, estamos falando daquilo que é relacionado à sua Lei. O Dr. Sproul, a classifica como “os preceitos, estatutos e mandamentos que ele dá ao seu povo”.³ A vontade preceptiva de Deus, pode e é frequentemente é contrariada, desrespeitada e desobedecida por nós. Encontramos nas Sagradas Escrituras alguns exemplos disso (Êxodo 20.14 / conf. II Samuel 11.1-4; Romanos 12.10 / conf. I Coríntios 1.9-13). Violamos a vontade preceptiva de Deus, sempre que transgredimos sua lei. Isso, porém, não significa que não haverá consequências. Pelo contrário, violar a vontade de Deus é trazer sobre si mesmo o juízo Divino (Romanos 12.17; Gálatas 6.7-8; Hebreus 12.28-29).

Embora possamos resistir à vontade preceptiva de Deus, isso não implica em que frustramos a soberania Divina, pois tudo está no escopo de sua vontade. Um bom exemplo disso é o episódio em que Deus ordena a Faraó que deixe o povo ir, mas Ele mesmo (Deus), endurece o coração do rei do Egito (Êxodo 4.21-23; cf. Romanos 9.11-24). Neste sentido, John Frame salienta que “nada pode se opor eficazmente à vontade decretatória de Deus. O que Deus decretou certamente acontecerá. No entanto, é possível para as criaturas desobedecer à vontade normativa de Deus – e elas muitas vezes o fazem”.⁴ Berkhof segue na mesma linha de pensamento ao afirmar: A primeira é realizada sempre, ao passo que a segunda é desobedecida com frequência.⁵

 

No caso específico da terceira petição, a referência é à vontade revelada de Deus, ou seja, à sua vontade preceptiva. “É a mesma vontade que é feita no céu, porém que ainda não é feita na terra de forma completa”.⁶

Algo de fundamental importância sobre a vontade de Deus é que não somos nós que a descobrimos, mas Deus é quem nos revela e isso, mediante sua Santa Palavra. Em parte alguma das Sagradas Escrituras, vemos qualquer ensinamento para que descubramos a vontade de Deus; o que encontramos é a exortação do apóstolo Paulo, para que a procuremos compreender (Efésios 5.17).

Como afirmou o salmista: “Por meio dos teus preceitos, consigo entendimento; por isso, detesto todo caminho de falsidade. Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos” (Salmo 119.104-105). Se ainda isso não for suficiente para nos dar tranquilidade e paz, quanto à vontade de Deus, devemos nos apegar confiantemente ao que nos ensina o apóstolo Paulo em Romanos 8.26-27, bem como Romanos 12.2.

Como afirmou o Dr. Sproul:

 

“Há um sentido em que as primeiras três petições estão dizendo a mesma coisa. A honra ao nome de Deus, a visibilidade de seu reino e a obediência à sua vontade são quase o mesmo conceito repetido de três maneiras diferentes. Estão inseparavelmente relacionados. Deus é honrado por nossa obediência, seu reino é tornado visível por nossa obediência, e muito obviamente sua vontade é feita quando somos obedientes a essa vontade. Estas são as prioridades que Jesus estabeleceu.”⁷

John Frame observa que “a vontade de Deus é às vezes frustrada porque ele assim o quer, pois ele tem dado a um dos seus desejos precedência sobre outro. Deus não planeja causar tudo o que ele valoriza, mas ele nunca falha em causar tudo o que ele planejou”.⁸

 

Continua…

 

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


 

[1] Cf. SPROUL, R. C. Op. Cit. pág. 41.

[2] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 3ª Edição. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.

[3] SPROUL, R. C. Posso conhecer a vontade de Deus? 1ª Edição. São Paulo: Editora Fiel, 2013.

[4] FRAME, John M. Não Há Outro Deus – Uma resposta ao Teísmo Aberto. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.

[5] Cf. BERKHOF, Louis. Op. Cit. pág. 74.

[6] HENDRIKSEN, William. Op. Cit. pág. 409.

[7] Cf. SPROUL, R. C. Op. Cit. pág. 42.

[8] STORMS Sam. Existem duas vontades em Deus? Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/atributosdeus/duasvontadesdeusstorms.htm. Acesso em: 17 de abril de 2018.