O Pai Nosso – Parte 7

Quarta petição

Após apresentar as prioridades da oração, isto é, petições que se voltam para a glória de Deus, Jesus ensina-nos a pedir por nossas necessidades (Mateus 6.11). Enquanto que o foco das três primeiras petições são o nome de Deus, que deve ser respeitado e honrado; seu Reino, que deve ser buscado; e sua vontade, que deve ser realizada e obedecida; as atenções da quarta petição, “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, voltam-se para nós, pois ela faz parte das súplicas que fazemos em nosso favor e revela-nos o caráter gracioso do Deus que é bom e cuja misericórdia dura para sempre (Salmo 136.1), que mesmo assentado no alto e sublime trono (Isaías 6.1), se importa conosco e provê o necessário para o sustento das suas criaturas (Salmo 136.25).

Não obstante a verdade supracitada, há pessoas que não conseguem ver a graça Divina em suas vidas, pois não tem aquilo que desejam e que acreditam ser importante para elas. Mas, como alguém já disse: “Deus supre necessidades, não vaidades”.

 

“Uma das coisas que denuncia a nossa condição caída é o conceito de homem de sucesso pessoal, aquele que toma o crédito por toda a abundância de seus bens e esquece a Fonte de toda provisão. Temos de lembrar que, em última análise, Deus nos dá tudo que temos.”¹

 

Na petição em apreço, somos ensinados a humildemente depender de Deus, pois em última análise, dele vem nosso sustento e tudo o que temos (I Crônicas 29.12-14). Somos ensinados ainda, que devemos ser moderados naquilo que desejamos, visto que devemos pedir o necessário para cada dia (conf. I Timóteo 6.6-10). Quando nos falta a sobriedade do contentamento, nossas orações não são respondidas (Tiago 4.1-3).

Já vimos a importância de analisarmos o contexto daquilo que estamos estudando e, no contexto posterior desta oração, o Senhor exortou seus discípulos a não viverem ansiosos quanto às suas necessidades (Mateus 6.25-34). A ansiedade, por vezes, denota falta de confiança e esta pode levar alguém ao desespero. Aprendamos, pois, a dependermos de Deus, a sermos moderados em nossas petições e ainda, a confiarmos em Deus. Um grande exemplo para nós é a oração feita por Agur, na qual ele suplica apenas, pelo necessário à sua subsistência (Provérbios 30.7-9). “Portanto, pedir a Deus que nos dê o pão significa recorrer à sua graça, para que nos sustente e não nos deixe perecer. Nesta oração está implícita a certeza de que a vida pertence a Deus”.²

É pertinente salientar que mesmo uma petição tão clara como esta – “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” tem sido distorcida e reinterpretada conforme a vã imaginação dos homens. As interpretações do catolicismo romano e da teologia da libertação são exemplo de como esta petição tem sido desvirtuada.

O pensamento católico-romano reproduz uma concepção histórica sobre o assunto. Para o catolicismo romano, Jesus estava ensinando a pedir pelo pão eucarístico, a hóstia. William Barclay observa que:

 

“Nas primeiras ordens de culto que possuímos se estabelece que o Pai Nosso deve orar-se durante a celebração da Santa Ceia, e alguns interpretaram que esta petição indica o desejo do crente de desfrutar quotidianamente do privilégio que significa participar da comunhão, e de receber o pão espiritual que ali nos é oferecido.”³

 

Não é de se entranhar que o catolicismo adote tal linha de pensamento, pois o ápice da missa é a eucaristia. Devemos lembrar ainda que para o catolicismo, o pão e o vinho transformam-se literalmente no corpo e no sangue de Cristo.

Por outro lado, a Teologia da Libertação, tem uma leitura absolutamente antropocêntrica das Sagradas Escrituras e dessa forma, entende que tal petição diz respeito ao socorro aos que sofrem. Para eles:

 

“A vida é mais do que o pão, mas em nenhum momento pode dis­pensar o pão. Em termos teológicos a infraestrutura humana é tão importante que Deus associou a salvação e a perdição ao atendimento justo e fraterno que fizermos dela ou não. Assim seremos julgados definitivamente pelo Juiz Supremo pelos critérios da infraestrutura: se tivermos ou não aten­dido o faminto, o nu, o sedento e o encarcerado. No pão, na água, nas vestes, na solidariedade joga-se, finalmente, o destino eterno do ser humano.”⁴

 

Continua…

 

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


 

[1] Cf. SPROUL, R. C. Op. Cit. pág. 44.

[2] Cf. COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Op. Cit. pág. 37.

[3] Cf. BARCLAY, William. Op. Cit. pág. 231.

[4] BOFF, Leonardo. Pai-nosso – A oração da libertação integral. 13ª Edição. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2013.