O Pai Nosso – Parte 8

Quinta petição

A quinta petição tem a ver não apenas conosco. Ela está diretamente ligada àqueles que nos feriram e nos machucaram, deixando de alguma maneira suas marcas em nossas vidas, pois precisamos perdoá-los como Deus, em Cristo, nos perdoou (Efésios 4.32). Portanto, “e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mateus 6.12), não é uma forma de mostrarmos a Deus o quanto somos “bons” perdoando aos que nos fizeram mal. É antes, o humilde reconhecimento de que necessitamos do perdão Divino. Isto fica claro a partir da conjunção “e”, que liga a necessidade de pão à necessidade de perdão, ou seja, tanto quanto necessitamos do “pão de cada dia”, necessitamos do perdão de Deus a cada instante. Neste sentido, o Catecismo Maior de Westminster nos ensina que,

 

“reconhecendo que nós e todos os demais somos culpados do pecado original e atual, e por isso nos tornamos devedores à justiça de Deus; que nem nós nem outra criatura qualquer pode fazer a mínima satisfação por essa dívida –, pedimos, por nós mesmos e por outros, que Deus da sua livre graça e pela obediência e satisfação de Cristo adquiridas e aplicadas pela fé, nos absolva da culpa e da punição do pecado, que nos aceite no seu Amado, continuem o seu favor e graça em nós, perdoe as nossas faltas diárias e nos encha de paz e gozo, dando-nos diariamente mais e mais certeza de perdão; que tenhamos mais coragem de pedir e sejamos mais animados e esperar, uma vez que já temos este testemunho em nós, que de coração já perdoamos aos outros as suas ofensas.”¹

 

A palavra grega ὀφείλημα (opheilema), traduzida como dívidas, refere-se não a dívidas comerciais ou financeiras, que podem ser satisfeitas, mediante o pagamento de certo valor monetário, mas a uma dívida penal, que para ser satisfeita precisa passar pelo tribunal e ser julgada no rigor da lei. Isso significa que éramos judicialmente culpados, mas Deus nos perdoou. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, o apóstolo Paulo afirma que fomos justificados por Deus Romanos 3.21-26; 5.1.

Ao tratar deste assunto, o evangelista Lucas refere-se a tais dívidas de forma ainda mais clara, chamando-as de pecados (cf. Lucas 11.4). Em termos mais simples, assim como o pecado gera a morte, o perdão de Deus gera a vida.

Devemos levar em conta o fato de que somente somos capazes de perdoar, porque Deus um dia nos perdoou. Ninguém pode dar aquilo que não recebeu. Neste sentido, Martyn Lloyd-Jones ressalta que “o verdadeiro perdão quebranta o homem, e ele se sente impelido a perdoar”.

Em Mateus 18.23-35, a personificação do perdão Divino, Jesus Cristo, nos exorta a perdoarmos, assim como temos sido perdoados. A questão é: que melhor evidência de tal salvação e perdão, que darmos gratuitamente aquilo que de graça recebemos? Neste sentido, Leonard T. Van Horn, diz que “a capacidade que mostramos de perdoar os outros é uma prova de que Deus está nos perdoando”.² Isto implica em perdoarmos não para merecermos perdão, mas que perdoamos porque fomos perdoados.

Diante do exposto, esta é, sem dúvidas, a mais difícil de todas as petições que poderíamos fazer, pois pedimos que Deus nos perdoe, assim como perdoamos àqueles que nos feriram de alguma forma. Esta petição é tão importante que Jesus após terminar a oração, voltou a tocar no assunto (versos 14-15). Perceba que existem duas sérias implicações no ato de perdoar: a) se eu perdoar, também serei perdoado (verso 14); b) se eu não perdoar, então, não serei perdoado (verso 15). Como bem expressa John MacArthur: “Jesus nos dá os pré-requisitos para perdoarmos uns aos outros nas palavras ‘assim como nós temos perdoados aos nossos devedores’ (Mt 6.12). O princípio é simples, porém sensato: se não perdoarmos não seremos perdoados”.³

 

Continua…

 

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


 

[1] Cf. O Catecismo Maior de Westminster. Op. Cit. pág. 277.

[2] HORN, Leonard T. Van. Estudos no Breve Catecismo de Westminster. 2ª Edição. São Paulo: Os Puritanos, 2009.

[3] JR, John MacArthur. A sós com Deus. Brasília: Editora Palavra, 2009.