O Pai Nosso – Parte 9

Sexta petição

Uma tradução literal dessa petição, a partir do texto grego seria και μη εισενεγκης ημας εις πειρασμον¹ (e não induzir nós em tentação).² Esse pedido pode ser facilmente mal interpretado, levando à ideia de que a Bíblia está se contradizendo, visto que em sua epístola, Tiago nos diz: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tiago 1.13). Outrossim, para que possamos entender o real significado desta petição ensinada por Cristo, precisamos esclarecer duas questões de fundamental importância. Primeiro, o sentido de “tentação” e depois a definição de “mal”, neste contexto.

A primeira parte desta petição diz: “e não nos deixes cair em tentação” (13a). O termo grego usado por Mateus é πειρασμός³ (peirasmos) e significa testar, tentar, experimentar, pôr à prova. Frequentemente pensamos em tentação apenas como algo ruim e acaba por prejudicar nossa compreensão do texto bíblico.

 

“Normalmente entendemos a palavra “tentação” com o sentido de seduzir ao pecado, ao erro. Entretanto, a ideia bíblica de “tentação” não é necessariamente esta: o seu sentido é o de colocar uma pessoa em prova, sujeitá-la a um teste; o que pode ser feito com o “propósito benevolente” de provar, experimentar ou melhorar a sua qualidade, verificar a sua fidelidade; ou então, com o “propósito malicioso” de mostrar a sua fraqueza, induzindo-o a um procedimento considerado negativo.”⁴

 

Se olharmos para tentação como uma forma de provação, então teremos uma melhor compreensão de textos que afirmam que Deus provou seu povo (Gênesis 22.1-2; Êxodo 16.4; Deuteronômio 8.2; I Crônicas 29.17). Contudo, ainda resta a dificuldade de harmonizar o dito de Tiago “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tiago 1.13), com a súplica ensinada pelo Senhor Jesus Cristo. O segredo está em uma palavra usada tanto por Mateus, quanto por Tiago: “mal”.

A expressão grega usada por Tiago é κακός (kakos), de gênero neutro e indica um mal geral ou moral (pecado); enquanto que o termo usado por Jesus é πονηρος (poneros), de gênero masculino e aponta para um ser maligno (Satanás).

Na segunda parte desta petição, lemos: “mas livra-nos do mal” (13b). O termo grego usado aqui é πονηρός (poneros) e significa mau, insalubre, maligno.⁵ O que fica evidente, portanto, é que esta petição é um pedido para que Deus nos proteja das as investidas de Satanás (cf. João 17.15; II Coríntios 2.10-11; I Pedro 5.8-11).

Em termos mais simples, podemos dizer que Deus não tenta (prova) ninguém com objetivos escusos. Ele não induz ninguém ao pecado. Quando Deus prova alguém ele o faz com um objetivo benéfico (Êxodo 20.20). Em contraste absoluto, o inimigo de nossas almas, vive buscando oportunidade para nos fazer transgredir a vontade de Deus, induzindo-nos ao pecado (Mateus 4.1-3; I Coríntios 7.1-5; I Tessalonicenses 3.5). Assim, como diz o Breve Catecismo de Westminster, quando pedimos: “E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, pedimos que Deus nos guarde de sermos tentados a pecar, ou nos preserve e livre, quando formos tentados”.⁶

Por fim, embora tenha dividido esta petição em duas partes, com fins didáticos, concordo com o Dr. Sproul que “a princípio, esta seção da Oração do Pai Nosso parece duas petições separadas, mas este não é o caso. Ela segue a forma literária de paralelismo usada no Antigo Testamento – duas maneiras diferentes de dizer a mesma coisa”.⁷

 

Declaração doxológica

Somos, por vezes, levados a pensar que existe uma eterna tensão entre o bem e o mal e que Deus e o Diabo lutam entre si, para ver quem assume o poder e o domínio da criação (dualismo)⁸. Entretanto, o texto bíblico dá absoluta ênfase ao fato de que Deus é o supremo Senhor e governante de tudo o que existe (I Crônicas 29.12; II Crônicas 20.6; Salmo 10.16, 145.13; Jeremias 10.7; Apocalipse 15.3-4).

O reconhecimento da autoridade e poder Divinos nos conduzirá a uma submissão alegre aos santos propósitos de Deus e nos conduzirá de maneira totalmente confiante em nossas orações, dispondo nosso coração a cumprir os preceitos das Sagradas Escrituras, sobretudo, os ensinamentos do Senhor nesta inigualável oração.

 

Conclusão

Resumidamente, podemos dizer que, embora a oração do Pai Nosso não seja uma oração para ser repetida semanalmente, ela sem dúvidas, tem muito a nos ensinar. Suas diversas partes, nos mostram não apenas que Deus é digno de glória e honra, requerendo o que lhe é devido, mas também, que ele se importa conosco, provendo o necessário para nossas vidas, como alimento, proteção e perdão.

A ele seja a honra e glória para sempre. Amém!

 

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


 

[1] Extraído de uma cópia do Textus Receptus (Texto grego a partir do qual a maioria das traduções bíblicas foi feita).

[2] GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1984.

[3] Idem.

[4] Cf. COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Op. Cit. pág. 62.

[5] PERSCHBACHER, Wesley J. The New Analytical Greek Lexicon. 9ª Ed. Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2006.

[6] _____________ O Breve Catecismo de Westminster. 3ª Edição. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.

[7] Cf. SPROUL, R. C. Op. Cit. pág. 50.

[8] Na teologia, o dualismo consiste na defesa de que existem duas entidades de igual poder e autoridade, mas que estão em mútua oposição: o bem e o mal. Deus representando o bem e o Diabo o mal.