A autorrevelação de Deus

O homem é um ser religioso e como tal, busca ao longo de sua vida dirimir questões que lhe são naturalmente obscuras e que transcendem o raciocínio lógico. Destarte, aventura-se a tentar compreender o metafisico e espiritual, a partir do limitado conhecimento adquirido em suas experiências pessoais.

O grande reformador, João Calvino, de certa maneira explica tal realidade, pois em sua leitura do ser humano, Calvino compreendeu e também ensinou, que todo homem traz consigo, desde o nascimento, a “sêmen religionis”, ou seja, a semente da religião, arraigada em seu coração¹. Isto implica em dizer que por mais que o homem queira, jamais poderá negar que existe dentro de si uma forte inclinação para as questões espirituais. Entretanto, devido à corrupção causada pelo pecado, o homem não pode voltar-se para Deus e ser por Ele salvo, mediante a revelação que a natureza faz dos atributos Divinos.

Outrossim, em contraste com a afirmação da Ecoteologia de que “nas energias do seu Espírito, Deus está em todas as coisas, e todas as coisas estão em Deus”² e ainda que “o Espírito de Deus age como um campo de forças, que dá energia a todas as coisas”. E ainda contrariando o Panteísmo que tributa divindade à natureza e às coisas criadas, a Confissão de Fé de Westminster afirma categórica e corretamente que as revelações de Deus na natureza, não podem conduzir o homem à salvação³.

Os conceitos supracitados (Ecoteologia e Panteísmo), revelam apenas uma coisa: a ignorância e cegueira dos homens, pois como afirma o apóstolo Paulo em Romanos 1.22-23, “eles se tornaram loucos e adoraram a criatura em lugar do Criador”.

Visto o homem ser naturalmente religioso e ao mesmo tempo incapaz de adorar corretamente o Criador, Deus dignou-se revelar-se à criatura. Doutra maneira ele seria eternamente o Deus absconditus⁴ em contraste com o Deus revelatus⁵.

Revelar quer dizer descobrir o que está escondido. É abrir a mente e o coração e expressar o que está neles. Esse conteúdo expressado é revelação quando não era conhecido antes que a abertura ou atividade reveladora acontecesse. Para resumir, poderia dizer que a revelação se refere ao que é novo ou desconhecido. Não era conhecido, nem percebido, nem considerado antes que fosse revelado.⁶

A revelação que Deus faz de si é a base de todo conhecimento cristão acerca da Divindade. Sendo, portanto, o fundamento da verdade. Em oposição a este pensamento, os hodiernos defensores da tolerância religiosa afirmam que cada religião tem a sua própria verdade. Não obstante, o cristianismo não cria sua própria verdade, ele a recebe e isso, mediante revelação. Neste sentido, acertadamente o Dr. J.I. Packer esclarece que “o cristianismo é a verdadeira adoração e serviço do verdadeiro Deus, Criador e Redentor da humanidade. É uma religião firmada na revelação […]”⁷.

E quando falamos sobre a revelação de Deus, partimos da premissa de que Ele existe e que é cognoscível⁸. Contudo, o homem jamais conheceria a Deus se ele não se manifestasse. Se Ele mesmo não tomasse a iniciativa ainda estaríamos nas trevas da ignorância. E os meios usados pelo Criador para que o pudéssemos conhecer são classificados como Revelação Geral e Revelação Especial.

 

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


 

[1] CALVINO, João. As institutas. Tomo 1. São Paulo: Editora UNESP, 2008.

[2] http://ecclesia.com.br/news/2012/?p=9222

[3] Vide Confissão de Fé de Westminster, cap.1, § 1º.

[4] Uma expressão do latim que significa que Deus está oculto.

[5] Uma expressão do latim que significa que Deus se revela.

[6] GRONINGEN, Gerard Van. O progresso da revelação no Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

[7] PACKER, J.I. Teologia Concisa. 2ª Edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

[8] Este termo designa o conceito de que algo ou alguém pode ser conhecido.