Elementos característicos da inspiração

Qual a razão de entendermos a inspiração conforme conceituada anteriormente? A razão é simples: entendemos que ela foi plenária, dinâmica, verbal e sobrenatural.

Plenária – como afirmamos anteriormente, Deus é o Supremo Autor das Escrituras. Assim sendo, tudo o que foi registrado, o foi por sua soberana vontade. Atestam tal verdade os textos de II Timóteo 3.16 e II Pedro 1.20-21. Logo, entendemos que as Escrituras foram plenamente inspiradas por Deus e não apenas algumas partes.

Dinâmica – não obstante ser Deus o Supremo Autor das Escrituras, ele se serviu da instrumentalidade humana para a realização de seus propósitos. Contudo, Deus não nulificou a personalidade dos que para este fim foram reservados, antes os usou como organismos vivos no registro de Sua vontade. Isto fica evidente nos registros de vários escritores bíblicos. Vejamos alguns:

  • Davi – este servo de Deus era um guerreiro nato, homem valente e temente a Deus, mas era também um musico talentoso (I Samuel 16.18, 22-23). Dessa forma, quando compõe seus Salmos, Davi está expressando o talento pessoal dado por Deus, ao passo que também manifesta, em seus escritos, a revelação Divina; a exemplo dos Salmos 22 e 145.
  • Isaías – conforme a tradição judaica, Isaías pertencia à nobreza de seus dias. Especula-se que seria primo do rei Uzias. E em seus escritos transparece uma forma poética e erudita de escrever. Basta analisarmos como ele expõe seu chamado (Isaías 6.1-8), bem como sua profecia acerca do Messias vindouro (Isaías 9.1-2,6) para que isso fique claro.
  • Paulo – nos escritos do apóstolo Paulo, especialmente em Romanos e Gálatas, destaca-se seu conhecimento da Lei e isto não é por acaso. Paulo foi, antes de sua conversão ao cristianismo, um proeminente doutor da Lei, um fariseu preparado aos pés de um dos mais conceituados mestres farisaicos de Israel (Atos 5.34; Atos 22.23; Filipenses 3.4-7). Isto, afora seu conhecimento da filosofia grega e da cultura geral (cf. Atos 17.28).

Verbal – entendemos que a inspiração também foi verbal, pois foi por meio de palavras que Deus revelou sua vontade e tornou claro o plano da salvação (II Samuel 23.2; Jeremias 1.9; Mateus 5.18; I Coríntios 2.13), assim como sua vontade nas mais diversas circunstâncias (Gênesis 12.1-3; Êxodo 3.7-10; I Samuel 16.7).

Sobrenatural – Ao passo que ela foi verbal, foi também sobrenatural, pois não aconteceu, como acontecem as supostas inspirações musicais e poéticas dos mais diversos artistas; não faz parte da mera sensibilidade humana acerca das coisas desta vida. Sua origem está em Deus (João 17.17; Romanos 10.17, I Pedro 1.23).

Diante do exposto, como diz João Calvino: “devemos à Escritura a mesma reverência devida a Deus, já que ela tem n’Ele sua única fonte, e não existe nenhuma origem humana misturada nela”.¹ Somente por serem inspirados os Escritos Sagrados são considerados ou recebidos como canônicos, ou seja, da sua inspiração depende, de forma absoluta, sua canonicidade.

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


 

[1] CALVINO, João. Op. Cit. pág. 263.