Canonicidade

Por canonicidade das Escrituras queremos dizer que, de acordo com padrões determinados e invariáveis, os livros incluídos nas Escrituras são considerados parte integrante de uma revelação Divina completa, sendo, portanto, determinantes no que se refere à fé e à prática cristã.

O termo canonicidade deriva do vocábulo cânon, que por sua vez procede do grego Kanõn (κανών) e traz consigo a ideia de uma regra ou norma que deve ser seguida e obedecida (cf. Gálatas 6.16). Não obstante, sua origem é semítica, provinda do hebraico Qâneh (קָנֶה) e apontava inicialmente para uma vara de medição (Ezequiel 40.3). Isto porque ao longo do tempo, tal expressão tomou outros sentidos, como por exemplo: regra, na gramática; tabelas, listas, datas e números quando o assunto era a matemática; pauta, em se tratando de arte; haste, na arquitetura; ou ainda, uma lista de obras escritas, quando o assunto em pauta era literatura¹. Dessa forma, quando falamos no Cânon das Escrituras, fazemos alusão a um conjunto de livros inspirados por Deus e que são regra ou norma de conduta e fé, autoritativa em todas as áreas da vida cristã. Ainda sobre este assunto, dois aspectos que precisamos levar em conta e que estão interligados são o ativo e o passivo.

Por aspecto ativo, fazemos menção ao fato de que as Escrituras são o cânon (regra, norma, padrão) pelo qual todas as coisas são julgadas e consideradas boas ou más; inclusive nossas obras, pensamentos e intenções. Por outro lado, no que tange ao aspecto passivo, fazemos referência ao padrão pelo qual, os escritos dos profetas e dos demais escritores bíblicos deveriam ser julgados. Até porquê havia em Israel uma já extensa publicação de literatura que era utilizada pelo povo. Alguns exemplos pertinentes são: Números 21.14; Josué 10.13; I Reis 11.41; I Crônicas 29.29; II Crônicas 13.22. Outros casos relacionados nas Escrituras, são: Isaías 30.8; Jeremias 30.2, 36.1-4. Tais escritos eram lidos e estudados pelo povo de Deus e muitos deles foram reconhecidos como inspirados e passaram a fazer parte do cânon Veterotestamentário².

Mormente, quando falamos em cânon Bíblico, tratamos de duas coleções de livros que compõem o Antigo e o Novo Testamento.

Antigo Testamento

Não foi Moisés, nem mesmo os profetas e ainda menos os líderes religiosos de Israel (fariseus, escribas, saduceus, etc.) que determinaram quais livros deveriam fazer parte do cânon do Antigo Testamento. Eles foram reconhecidos pelo próprio povo como tendo autoridade Divina em seus escritos. Neste sentido, uma narrativa de extraordinária beleza está registrada em II Crônicas 34, quando o rei Josias toma conhecimento de que o “Livro da Lei do Senhor” (vers. 14) havia sido encontrado e com base em seus registros e preceitos, ele promove uma grande reforma espiritual no seu reino (cf. II Crônicas 34 e 35).

Por outro lado, o famoso historiador judeu, Flávio Josefo, ressalta que,

Esdras se preocupava de modo particular com os livros sagrados. Ele é chamado de “o escriba” (Ne. 8.1,4,9,13; 12.26,36), “escriba versado na lei de Moisés” (Esdras 7.6), e “o escriba das palavras e mandamentos e dos estatutos     do Senhor sobre Israel” (Esdras 7.11); a natureza da época de Esdras era tal que  a seleção dos livros sagrados pode ter sido apropriadamente feita no seu decorrer. Após o Exílio, o povo estava fundando de novo as instituições religiosas da nação. O que poderia ser mais natural do que reunir os volumes da biblioteca sacra? (apud. THIESSEN, 1989, pág.63).³

O que se infere das palavras de Josefo é que já havia uma coleção de livros considerados sagrados pelo povo de Deus, quando de seu retorno do exilio babilônico. Nesta linha de pensamento F.F. Bruce expressa que,

Encontramos na história de Israel certos escritos reconhecidos como autoridade divina e como regra escrita de fé e conduta para o povo de Deus. Identificamos isso na resposta do povo, quando Moisés leu para eles o livro do concerto (Êx 24.7), ou quando o Livro da Lei, achado por Hilquias, foi lido primeiro para o rei e depois para a congregação (2 Rs 22—23; 2 Cr 34), ou ainda quando Esdras leu o Livro da Lei para o povo (Ne 8.9,14-17; 10.28-39; 13.1-3).⁴

Bruce destaca ainda, conforme citado anteriormente, que:

“A razão de Moisés e os profetas registrarem por escrito a mensagem de Deus, não se contentando apenas em entregá-la oralmente, era que às vezes a enviavam a outros lugares (Jr 29.1; 36.1-8; 51.60,61; 2 Cr 21.12). Mas, na maioria das vezes, era para preservá-la para o futuro, como um memorial (Êx 17.14) ou uma testemunha (Dt 31.24-26), a fim de que ficasse escrita para o tempo vindouro (Is 30.8).”⁵

Não sabemos exatamente quais os critérios utilizados pelos judeus na formação do cânon do Antigo Testamento. Embora, um estudo adequado da manuscritologia bíblica, possa nos ajudar neste aspecto, não o faremos nesse momento. Não obstante, entendemos que o processo de canonização de tais livros se deu pela iluminação e orientação do Espírito Santo, levando não apenas o povo, mas especialmente seus líderes religiosos a aceitarem a inspiração, autenticidade e autoridade dos mesmos. Ademais disto, aceitamos, e não poderia ser diferente, a opinião expressa por Jesus e pelos apóstolos acerca dos livros que compõem o Cânon Veterotestamentário (cf. Mateus 22.29; Lucas 24.25-32; João 5.39; II Timóteo 3.16-17 e II Pedro 1.20-21). Assim, como diz Gleason L. Archer Jr.:

“O único verdadeiro teste de canonicidade que permanece de pé é o testemunho de Deus, o Espírito Santo, à autoridade da sua própria Palavra. Esse testemunho provoca uma resposta de reconhecimento, fé e submissão no coração do povo de Deus que andava com ele na comunhão da aliança.”⁶

A pergunta que talvez, alguém possa fazer é: porque os judeus que estabeleceram o cânon do Antigo Testamento e não outros povos? A resposta a esta indagação é que os judeus não estabeleceram o cânon, antes reconheceram como sagrados, livros, profecias e outros escritos dados por Deus ao seu povo. Ademais disto, os judeus foram o povo com quem Deus fez sua aliança e a quem ele revelou de forma verbal e escrita sua vontade. Assim, o apóstolo Paulo, com propriedade afirma que aos “judeus foram confiados os oráculos de Deus” (Romanos 3.2).

Novo Testamento

Conquanto não tenhamos muitas informações acerca do cânon do Antigo Testamento; na formação canônica do Novo Testamento os padrões eram claros e objetivos, visto que para que um livro ou escrito fosse recebido como canônico, deveria apresentar algumas características bastante distintas:

  1. Ter sido escrito por um dos doze apóstolos, ou alguém que tivesse convivido com eles (p. ex. Lucas e Marcos);
  2. A aceitação de sua autoridade, bem como sua utilização pela igreja como preceitos normativos (cf. I Tessalonicenses 2.13);
  3. Coerência doutrinária. Tais escritos deveriam estar de acordo com revelações dadas por Deus em tempos anteriores (cf. Efésios 1.22, Salmo 8.6);
  4. Inspiração.

A essa altura faz-se necessário destacar que os escritos bíblicos não passaram a fazer parte do cânon, mediante o consenso de uma igreja institucionalizada, senão que sua inspiração e autoridade foram reconhecidas naturalmente pela da igreja cristã ao longo dos séculos. Assim, após uma análise e aprovação criteriosa, tornaram-se regra de fé e prática para os servos de Deus, conforme expressa Merryl C. Tenney (apud. COSTA, 2008): “O cânon, portanto, não é produto do critério arbitrário de qualquer pessoa, nem foi determinado por voto conciliar. Resultou do emprego dos vários escritos que provavam seu mérito e a sua unidade pelo seu dinamismo interno”.⁷ Outrossim, como afirma F.F. Bruce (apud. COSTA, 2008, págs. 26, 27):

Os livros do Novo Testamento não se fizeram possuídos de autoridade para a Igreja pelo fato de virem a ser formalmente incluídos em uma lista canônica; pelo contrário, a Igreja incluiu-os no cânon porque já os havia por divinamente inspirados, reconhecendo-lhes o valor inato e a autoridade apostólica, direta ou indireta.⁸

Devemos considerar, ainda, o fato de que a inspiração é de onde advém a autoridade das Escrituras e a canonização é o meio pelo qual ela é aceita pelo povo de Deus.

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


 

[1] Conceituação feita pelo Dr. Hermisten Maia em seu livro: A Inspiração e Inerrância das Escrituras. Op. Cit. pág. 18.

[2] Relativo ao Antigo Testamento.

[3] THIESSEN, Henry Clarence. Palestras Introdutórias à Teologia Sistemática. São Paulo: Imprensa Batista Regular do Brasil, 1989.

[4] BRUCE, F.F. et al. Op. Cit. pág. 81.

[5] Ibidem

[6] ARCHER JR., Gleason L. Panorama do Antigo Testamento. 4ª Edição. São Paulo: Editora Vida Nova, 2012.

[7] COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Op. Cit. pág. 27.

[8] Ibidem.