Cânon Hebraico x Cânon Cristão

Um ponto de fundamental importância, é a disparidade existente entre o cânon hebraico e o cânon cristão. Diferença essa que não está relacionada ao conteúdo dos mesmos, senão na quantidade de livros que foram inseridos nos cânones referenciados. Mas, antes de fazermos juízo de valor, devemos tentar compreender tais disparidades, sabendo antecipadamente, que tais diferenças não influem na relevância e legitimidade de qualquer dos cânones.

Ao falar sobre os livros considerados Divinos e que compõem o cânon hebraico, Flávio Josefo, assevera:

“Não temos, pois, receio de ver entre nós um grande número de livros que se contradizem. Temos somente vinte e dois que compreendem tudo o que se passou, e que se referem a nós, desde o começo do mundo até agora, e aos quais somos obrigados a prestar fé. Cinco são de Moisés, que refere tudo o que aconteceu até sua morte, durante perto de três mil anos e a sequência dos descendentes de Adão. Os profetas que sucederam a esse admirável legislador escreveram, em treze outros livros, tudo o que se passou depois de sua morte até o reinado de  Artaxerxes, filho de Xerxes, rei dos persas, e os quatro outros livros contêm hinos e cânticos feitos em louvor de Deus e preceitos para os costumes. Escreveu-se também tudo o que se passou desde Artaxerxes até os nossos dias, mas como não se teve, como antes, uma sequência de profetas não se lhes dá o mesmo crédito, que aos outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito, que ninguém jamais foi tão atrevido para tentar tirar ou acrescentar, ou mesmo modificar-lhes a mínima coisa. Nós os consideramos como divinos, chamamo-los assim; fazemos profissão de observá-los inviolavelmente e morrer com alegria, se for necessário, para prová-lo.”¹

O que devemos levar em conta nas palavras de Josefo é o fato de que os judeus não reconhecem os escritos do Novo Testamento como inspirados, pois não veem Jesus como o Messias prometido. Destarte, os únicos escritos que consideram sagrados são os livros que compõem o Antigo Testamento. Mesmo assim, ainda permanece certa discrepância no número de livros apresentados nos cânones supracitados, visto que como afirma o historiador judeu, os livros do cânon judaico (Antigo Testamento) são vinte e dois e os adotados no cânon cristão protestante somam trinta e nove, tratando-se apenas do Antigo Testamento.

A questão que disto surge é: como pode haver contraste entre ambos os cânones apresentados se o cânon cristão procede do cânon judeu? A resposta para essa indagação é encontrada na forma como os livros que compõem tais cânones foram catalogados.

No cânon hebraico I e II Samuel formam apenas um livro; o mesmo ocorre com I e  II Reis; I e II Crônicas; Juízes e Rute; Jeremias e Lamentações; Esdras e Neemias. De modo semelhante, os profetas menores, formam apenas um livro.

O Dr. Paulo Anglada aponta para divisão geral do cânon hebraico²:

  • O Pentateuco (Torá): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.
  • Os Profetas (Neviim):
  • Anteriores: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis.
  • Posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Profetas Menores.
  • Os Escritos (Kêtuvim): Poesia e Sabedoria: Salmos, Provérbios e Jó.
  • Rolos ou Megilloth (lidos no ano litúrgico): Cantares (na páscoa), Rute (no pentecostes), Lamentações (no quinto mês), Eclesiastes (na festa dos tabernáculos) e Ester (na festa de purim).
  • Históricos: Daniel, Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas.

Distintamente, o cânon protestante faz separação destes livros sem, contudo, tocar em seu conteúdo. Ou seja, divide Samuel em dois livros: I e II Samuel. O mesmo acontece com o livro dos Reis e o livro das Crônicas; separa ainda os livros de Esdras e Neemias; Juízes e Rute; Jeremias e Lamentações como sendo distintos. Seguindo dessa forma o padrão estabelecido na Septuaginta³. Não obstante, o conteúdo destes livros permanece inalterado e intocável, pois são recebidos com Palavra de Deus e esta não pode ser manipulada pelo homem.

Em contraste, o cânon católico-romano traz em seu arcabouço os mesmos livros adotados nos cânones apresentados, acrescentando outros sete, além de adições feitas a Ester e Daniel. Tais acréscimos são considerados apócrifos.

Rev. Elivanaldo Fernandes

 


 

[1] JOSEFO, Flávio. História dos hebreus – De Abraão à queda de Jerusalém. 8ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

[2] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura – A Doutrina Reformada das Escrituras. São Paulo: Editora Os Puritanos, 1998.

[3] Versão grega do Antigo Testamento